Bastaram oito meses.
Cheguei meio assim sem avisar, de um parto fácil, quase sem dor, em poucos minutos. Nasci com pressa.
E assim fui: pimentinha, risonha, irriquieta, moleca de pé no chão e sardas no rosto. Falando ligeiro, com a língua roxa de pitanga, barriga doendo de araçá e joelho doendo de urtiga. Se passarinho comia, eu também podia. Sempre deu certo.
Se ficava triste ía pra debaixo da cama, se aprontava subia no galho mais alto da goiabeira. E esperava o tempo.
Minha mãe foi freira, minha avó, índia curandeira. Cresci rezando o Santo Anjo, mudando de humor quando muda a lua, fazendo castelo pras formigas, armadilha pra lebre com graveto e caixa de papelão. Espiando no buraco da fechadura, lendo Condessa de Ségur naquele lugar escondido, desenhando tudo o que via, ouvindo meu pai falar sobre Filosofia, Astronomia, Física. Colecionei pedrinhas brilhantes, bolinhas de golfe perdidas, colecionei caramujos, colecionei sonhos (perdidos?).
Aprendi a distinguir cobra inofensiva da venenosa, mas gente boa de ruim ainda to aprendendo.
Fui vivendo sem medo, por não conhecer o mal, acreditando nas pessoas, falando o que vem de dentro, olhando no olho. Enfrentei sozinha a cidade, busquei, acreditei, amei, tropecei, dei o melhor de mim. Se me perguntarem como estou, sempre bem! Se sou eu quem pergunta: -E aí mulher??
Se eu estiver alegre, brinde comigo. Se confusa, vamos tomar um café? Se quero te entender, melhor um chá.
Não me deixem com sono ou de barriga vazia, que eu viro criança: quero ir pra casa! Não me deixem sem água, tenho muita sede! Não me digam mentiras porque eu acredito. Não me deixem sem carinho porque eu choro. Não façam injustiças porque eu grito. Eu grito alto, eu brigo, eu perco o sono.
Sou mulher forte em corpo frágil e alma de criança. Sou mãe, sou dona de mim, sou luta, sou leve, sou gargalhada, sou cúmplice.
Quero mais do que um bom sono em lençóis limpos. Quero sonhos coloridos! Preciso também de meias, meus pés são frios! Preciso das pessoas, preciso dos amigos.
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